A prática da amamentação é biológica, pois o corpo da mãe se transforma naturalmente (sem a ação dela) para este momento. Nem a escolha em engravidar muitas vezes não depende de uma vontade, faz parte de um mecanismo puramente biológico e natural na espécie humana. Então, poderíamos pensar que o ato de amamentar é também natural e instintivo? Se formos considerar esta linha de pensamento no que se refere o organismo biológico humano, sim, mas este ato
depende unicamente de uma ação e de uma escolha da mãe, o que nos diferencia das outras espécies mamíferas.
Existem muitas formas de amar, cada um ama de um jeito e cada jeito de amar possui infinitas formas de sentir e vivenciar este amor. Amamentar então é também um ato de amor, porque o amor é a roda que move o mundo. Este ato pode ser pensado apenas como uma importância fundamental de doar o melhor alimento, o mais completo e o essencial para um bebê. Mas nem todas as mães desejam amamentar, porque este ato está muito relacionado á uma ação de doação, de entrega e de abdicação... Existem mães que não desejam amamentar e ponto.
Nossa existência é pautada no cuidado: o cuidado com nós mesmos, com o nosso corpo, com a nossa psique, com as nossas emoções e vontades. Cuidar de um bebê gerado é parte desta existência, mas este cuidado também possui diversas formas e definições. O cuidado pode ser realizado pela mãe, por parentes, por uma instituição... A mãe que trabalha pode continuar nutrindo o seu bebê, ordenhando o seu leite e garantindo que ele seja oferecido em sua ausência. Este ato também é uma forma de amor, porque depreende dela dedicação, tempo, abdicação...
É esta ação – que podemos chamar de cuidado, amor, responsabilidade, ética – a responsável pela várias construções e desconstruções que fazemos todo o tempo com relação á dedicação de uma função materna. A culpa por não amamentar só será uma verdade quanto essas construções foram alicerçadas em opiniões, palpites, crenças e ações culturais as quais essas mães estão intimamente ligadas e que possuem definições diversas. A pluralidade delas, no entanto, é a verdadeira causa da culpa.
O trabalho de empoderamento das mães com relação ao ato de amamentar e à sua importância, só terá relevância social quando esta ação individual de cada mãe for pautada num delicado processo de conscientização, informação, apoio e principalmente o reconhecimento de uma ação fundamental e insubstituível para a vida de um bebê.
O respeito pela escuta da mãe individualmente, da sua própria vivência, vontades, possibilidades e realidades, é a garantia de que a compreensão de uma escolha possa ser aceita com também uma possibilidade. Amamentamos porque nos causa bem-estar saber que temos o grande poder de produzir um alimento tão extraordinário e único. Amamentamos porque este ato é a continuidade da vida uterina que proporcionamos durante os nove meses ao nosso bebê e ele resulta em conforto, segurança, proteção e paz. Amamentamos porque temos a consciência de que este ato á nós unicamente pertence. Amamentamos porque somos capazes de amar incondicionalmente este ser gerado em nós. Amamentamos também porque esta é a nossa ação neste mundo.
Simone de Carvalho